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Mostrando postagens de março, 2020

Quando presenciamos uma reunião rara e preciosa como essa, sabemos que um matrimônio espiritual está iminente; sabemos também que ocorrerá uma morte espiritual e que uma nova vida surgirá. Esses fatores prevêem o que está por vir. Conjunctio não é algo que se consiga com facilidade. Trata-se de algo que ocorre em decorrência de um trabalho extremamente árduo.

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Quando presenciamos uma reunião rara e preciosa como essa, sabemos que um matrimônio espiritual está iminente; sabemos também que ocorrerá uma morte espiritual e que uma nova vida surgirá. Esses fatores prevêem o que está por vir. Conjunctio não é algo que se consiga com facilidade. Trata-se de algo que ocorre em decorrência de um trabalho extremamente árduo.Pois, cá estamos, com a roupa enlameada, caminhando por uma estrada nunca vista antes, e com o sinal da Mulher Selvagem reluzindo cada vez mais dentro de nós.É legítimo dizer que esse tipo de conjunctio está insistindo numa surpreendente revisão do seu velho self. Se estamos aqui no pomar, e conosco estão esses aspectos psíquicos identificáveis, não há como voltar atrás — temos de prosseguir.

Os principais agentes de transformação presentes no pomar nessa ocasião são, na ordem aproximada de sua aparição, a donzela, o espírito de branco, o jardineiro, o rei, o mago, a mãe/a velha e o diabo. Segundo a tradição, eles representam as seguintes forças intrapsíquicas.

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Nesse sentido, a história funciona de dois modos, seja deixando transparecer o suficiente dos antigos rituais para que possamos imaginá-los, seja mostrando-nos como o predador natural tenta nos isolar dos nossos poderes de direito, como ele tenta tirar de nós nosso trabalho mais profundo. A DONZELA Como vimos, a donzela representa a psique sincera que esteve adormecida. No entanto, uma heroína-guerreira encontra-se por baixo da sua aparência frágil. Ela tem a resistência do lobo solitário. Ela é capaz de suportar a sujeira, a imundície, a traição, a mágoa, a solidão e o exílio do iniciando. Ela é capaz de vaguear pelo mundo dos mortos e voltar, enriquecida ao mundo objetivo. Embora ela talvez não seja capaz de colocá-las em palavras, ao descer pela primeira vez, ela está seguindo as instruções e recomendações da Velha Mãe, a Mulher Selvagem. O ESPÍRITO DE BRANCO Em todas as lendas e contos de fadas, o espírito de branco é o guia, aquele que tem um conhecimento inato e delicado, qu...

O quarto estágio — Encontrando o amor no outro mundo

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Na manhã do dia seguinte, o rei vem contar suas pêras. Está faltando uma, e o jardineiro revela o que viu. "Ontem à noite, dois espíritos esgotaram o fosso, entraram no jardim à luz do luar e um deles que era mulher e não tinha mãos comeu a pêra que se oferecia a ela."O rei é uma criatura que transmite sabedoria na psique do outro mundo. Ele não é simplesmente qualquer rei velho, mas um dos principais guardiões do inconsciente da mulher. Ele cuida da botânica da alma que cresce — o pomar dele (e da sua mãe) está repleto de árvores da vida e da morte. Ele pertence à família dos deuses selvagens. Como a donzela, ele é capaz de agüentar muito. E como a donzela, ele ainda tem mais uma descida à sua frente. Mas isso virá depois. Num certo sentido, seria possível dizer que ele está seguindo o rastro da donzela. A psique sempre acompanha de perto seu próprio processo, como uma sombra. Essa é uma premissa das sagradas. Ela quer dizer que, se você estiver vagueando, sempre haverá...

Na história, a ação está agora centrada na árvore frutífera, que em tempos remotos era chamada de Árvore da Vida, Árvore do Conhecimento, Árvore da Vida e da Morte ou Árvore do Saber.

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Ao contrário de árvores com folhagens diversas, a árvore frutífera é uma árvore de alimento abundante — e não só de alimento, pois a árvore armazena água nos seus frutos. A água, o líquido fundamental do crescimento e da continuidade, é absorvida pelas raízes que alimentam a planta pela ação capilar — uma rede de bilhões de ligações celulares pequenas demais para serem vistas — e a água chega até o fruto e faz com que ele cresça e se embeleze.Por esse motivo, considera-se que o fruto é investido de alma, de uma força de vida que deriva de uma certa quantidade de água, ar, terra, alimento e semente e que contém tudo isso, além de ter um sabor divino. As mulheres que se alimentam do fruto, da água e da semente do trabalho nas florestas do outro mundo também crescem psicologicamente na mesma proporção. Suas psiques engravidam e permanecem num estado de amadurecimento constante

A idéia psíquica aqui representada é a de que o mundo subterrâneo, à semelhança do inconsciente dos seres humanos, é um torvelinho com muitas características incomuns e irresistíveis: imagens, arquétipos, seduções, ameaças, torturas e provas.

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É importante para o processo de individuação da mulher que ela tenha bom senso espiritual, ou que seja auxiliada por um guia que o tenha, para que ela não caia na fantasmagoria do inconsciente, para que ela não se perca no meio desse material torturante e sedutor. Como vemos na história, é mais importante permanecer com a nossa fome e prosseguir a partir daí. Como Perséfone e as deusas da vida-morte-vida antes dela, a donzela entra por acaso numa terra onde há pomares mágicos e onde um rei aguarda por ela. A antiga religião começa agora a fulgir nessa história com intensidade cada vez maior. Nos mitos gregos havia duas árvores entrelaçadas acima dos portões do mundo dos mortos, e o Eliseu, o lugar para onde eram enviados os mortos considerados virtuosos, era composto de quê? — isso mesmo, de pomares.

A donzela vulnerável é acompanhada por um mensageiro da alma, o espírito de branco. Esse espírito de branco remove os obstáculos que a impediam de alimentar-se.

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Ele esvazia o fosso ao mexer na comporta. O fosso tem um significado oculto. Segundo os gregos antigos, no mundo subterrâneo, o rio chamado Estige separa a terra dos vivos da terra dos mortos. Suas águas são cheias das recordações de todos os feitos dos mortos desde o início dos tempos. Os mortos conseguem decifrar essas recordações e mantê-las em ordem por terem uma visão mais aguçada decorrente de não possuírem corpo físico.Para os vivos, porém, o rio é considerado um veneno. A menos que a travessia do ser vivo seja acompanhada por um guia espiritual, ele irá se afogar, afundando para um outro nível do mundo subterrâneo, um lugar que é como uma névoa, e lá irá vaguear para sempre. Dante teve seu Virgílio, Coatlique teve uma cobra viva que a acompanhou até o mundo de fogo, e a donzela sem mãos tem o espírito de branco. Portanto a princípio, a mulher escapa da mãe ainda adormecida e do pai ganancioso e cheio de si, para em seguida deixar-se conduzir pela alma selvagem. Na história, ...

No tempo dos grandes matriarcados, compreendia-se que a mulher seria naturalmente levada ao mundo subterrâneo, que seria até lá conduzida pelos poderes do feminino profundo.

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Era considerado parte da sua formação e uma realização de altíssimo valor que ela adquirisse conhecimento por experiência própria. A natureza dessa descida é o cerne arquetípico tanto do conto de fadas da donzela sem mãos quanto do mito de Deméter e Perséfone. Pois agora, na história, a donzela vagueia, mais uma vez assumindo sua natureza animal, que não se lava. É essa a atitude certa para a descida — uma atitude do tipo "não ligo tanto assim para as coisas deste mundo". E como podemos ver, sua beleza refulge mesmo assim. A idéia de não se lavar também provém dos rituais de tempos antiqüíssimos, rituais que culminavam com o banho e novos trajes representantes da passagem para um relacionamento novo ou renovado com o Self. Vemos que a donzela sem mãos passou por uma descida e transformação completa: a do despertar. Na alquimia, existem três estágios: o nigredo, o estágio negro ou sombrio da dissolução; o rubedo, o estágio vermelho ou do sacrifício; e saída de casa envolt...

O arquétipo do andarilho propicia ou causa o surgimento de um outro: o do lobo solitário ou do proscrito

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Essa passa a ser a imagem viva para as mulheres que iniciaram a viagem. Começamos de certo modo a não mais sentir que fazemos parte da vida que rodopia à nossa volta. Nesse ponto, a antiga religião noturna volta a surgir para nos encontrar. Embora a antiga lenda de Hades raptando Perséfone para o mundo dos mortos seja eficaz como drama, histórias muito mais antigas oriundas de religiões centradas no matriarcado, como aquelas que falam de Ishtar e Inanna, indicam um nítido vínculo de "desejo de amar" entre a donzela e o rei do mundo oculto.Nessas antigas versões religiosas, a donzela não é necessariamente capturada e arrastada até o mundo subterrâneo por algum deus sinistro. A donzela sabe que deve ir, sabe que aquilo faz parte de um rito divino. Apesar de ter medo, ela quer ir ao encontro do seu rei, seu noivo no mundo oculto, desde o início. Ao empreender a descida ao seu próprio modo, ela é ali transformada, atinge ali o conhecimento profundo e volta a subir para o mundo ...

A donzela transforma-se em andarilha, e só isso já representa uma ressurreição para uma nova vida e uma morte na vida antiga. Perambular é uma excelente opção.

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As mulheres nesse estágio muitas vezes começam a se sentir tanto desesperadas quanto inflexíveis para iniciar essa jornada interior, não importa como. E é o que ocorre quando deixam uma vida por outra, uma estágio da vida por outro ou, às vezes, até um amante por nenhum outro a não ser elas mesmas. O progresso da adolescência até a jovem idade adulta, da mulher casada para novamente solteira, da meia-idade para a velhice, a transposição do limite da velhice, partindo com feridas mas com um sistema de valores renovado — isso é a morte e a ressurreição. Abandonar um relacionamento ou o lar dos nossos pais, deixar para trás valores ultrapassados, assumir nossa própria identidade e, às vezes, penetrar na profundeza da selva simplesmente porque precisamos, tudo isso constitui a ventura da descida. E lá partimos nós sob uma luz diferente, sob um céu diferente, com um chão desconhecido por baixo das nossas bota. E no entanto estamos vulneráveis, pois não temos como nos agarrar, nos segur...

O terceiro estágio — A perambulação

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No terceiro estágio da história, o pai faz a oferta de manter a filha na riqueza pelo resto da vida, mas ela diz que vai partir para depender do destino. Ao amanhecer, com os braços atados com gaze limpa, ela se afasta da vida como a conhecia até então.Ela se torna desgrenhada e animalesca. Tarde da noite, ela chega a um pomar onde as pêras são numeradas. Um espírito esgota o fosso em volta do pomar; e, enquanto o jardineiro observa assombrado, ela come a pêra que se oferece a ela. A iniciação é o processo pelo qual desistimos da nossa inclinação natural para permanecer inconsciente e resolvemos que, custe o que custar — sofrimento, luta, persistência —iremos perseguir a união consciente com a mente mais profunda, o Self selvagem. Na história, a mãe e o pai tentam atrair a filha de volta ao estado de inconsciência: "Ah, fique aqui conosco, você está ferida, mas nós podemos fazer com que esqueça." Será que ela, agora que derrotou o demônio, irá descansar sobre os louros c...

Tudo isso faz com que o diabo jogue o rabo sobre o ombro e vá embora furioso. Nesse sentido, quando a mulher sente ter perdido contato, perdido seu jeito habitual de lidar com o mundo, ela tem poder ainda na pureza da sua alma; ela é forte na sua insistente tristeza, e isso faz com que se afaste aquilo que a quer destruir.

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É verdade que o corpo psíquico perdeu suas mãos, mas o resto da psique irá compensar essa perda. Ainda dispomos de pés que conhecem o caminho, a mentealma com a qual vemos longe, seios e ventre para pressentir, exatamente como a exótica e enigmática deusa do ventre, Baubo, que representa a profunda natureza instintiva das mulheres... e que também não tem mãos. Com esse corpo incorpóreo e estranho, vamos adiante. Estamos a ponto de realizar a descida seguinte.

O predador da psique conhece tudo a respeito do profundo mistério associado às mãos.

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A essa altura percebemos na nossa vida que, não importa o que façamos, os planos do nosso ego fogem das nossas mãos. Haverá uma mudança na nossa vida, uma das grandes, independente dos belos planos que o ego maestro-temperamental tenha para o próximo movimento. Nosso próprio destino poderoso começa a governar nossa vida — não o moinho, não a vassoura, não o sono. Acabou-se a vida como a conhecíamos. Desejamos ficar sozinhas, talvez que nos deixem em paz. Não podemos mais confiar na cultura paterna dominante. Estamos envolvidas com o primeiro aprendizado da nossa vida verdadeira. Persistimos.

Nos contos de fadas, existe um leitmotiv chamado de "objeto lançado"

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A heroína que está sendo perseguida tira um pente mágico dos cabelos e o joga atrás de si, onde ele se transforma numa floresta tão densa que não se consegue enfiar um forcado entre as árvores. Ou então a heroína tem um pequeno frasco de água, que ela abre, salpicando seu conteúdo atrás de si enquanto corre. As gotículas transformamse numa enchente, que efetivamente retarda a velocidade de quem a persegue. Na história, a jovem chora sem parar, molhando os tocos dos braços, e o diabo é repelido por algum tipo de campo de força ao seu redor. Ele não consegue agarrá-la como pretendia. Aqui, as lágrimas são o "objeto lançado", o muro de água que mantém o diabo afastado, não porque ele esteja comovido ou emocionado com elas — ele não está — mas porque há algo na pureza das lágrimas verdadeiras que anula o poder do demônio. Descobrimos que isso é verdade quando choramos a mais não poder porque não há nada, absolutamente nada, no horizonte a não ser as possibilidades mais áridas, ...

Portanto, é nessa descida que perdemos nossas mãos psíquicas, aquelas partes do nosso corpo que em si mesmas se assemelham a dois pequenos seres humanos.

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Nos tempos antigos, os dedos eram comparados a pernas e braços, e a articulação do pulso, à cabeça. Esses seres sabem dançar; eles sabem cantar. As mãos são seres por si sós.Como mulheres, tocamos muitas pessoas. Sabemos que nossa palma é uma espécie de sensor. Quer seja num abraço, numa palmadinha, quer seja num simples toque no ombro, estamos interpretando as pessoas que tocamos. Se estivermos ligadas a La Que Sabé, sabemos o que o outro ser humano sente quando o apalpamos. Para algumas pessoas, chegam-lhes informações sob a forma de imagens e até mesmo de palavras, dando-lhes conta do estado emocional do outro. Poderíamos dizer que existe nas mãos uma espécie de radar. As mãos não são só receptores, mas também transmissores. Quando apertamos a mão de alguém, podemos enviar uma mensagem, e com freqüência o fazemos através da pressão, da intensidade, da duração e da temperatura da pele. As pessoas que, consciente ou inconscientemente, têm más intenções apresentam toques que dão a i...

Na metáfora da mutilação das mãos, vemos que algo advirá disso. No mundo subterrâneo, sempre que alguma coisa não consegue viver, ela é derrubada e dividida para ser usada de outro modo. Essa mulher da história não é velha, não está doente, mas ela precisa ser despojada já que não pode continuar sendo como era antes. Contudo, há forças que estão à sua espera para ajudá-la a curar-se

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No entanto, ao cortar fora suas mãos, o pai aprofunda a descida, acelera a disolutio, a difícil perda de todos os nossos valores mais caros, que significam tudo, a perda do ponto privilegiado, a perda das linhas do horizonte, a perda dos nossos pontos de referência acerca daquilo em que acreditamos e por que motivos. Nos ritos aborígines no mundo inteiro, a idéia é confundir definitivamente o rotineiro para que o místico possa ser facilmente apresentado aos iniciandos.

Podemos compreender a remoção das mãos psíquicas exatamente da mesma forma que esse símbolo era compreendido pelos antigos. Na Ásia, o machado celestial era utilizado para separar a pessoa do self não-iluminado

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Nas antigas religiões matriarcais, esse tipo de machado pertence por natureza à deusa, não ao pai. Essa seqüência no conto de fadas sugere com firmeza que a propriedade do machado por parte do pai ocorre na história em conseqüência da mistura de aspectos das religiões novas e antigas, sendo que a mais antiga foi desfeita e deixou certamente de ser lembrada. No entanto, independente das névoas do tempo e/ou das camadas que encobrem essas antigas idéias sobre a iniciação das mulheres, ao acompanhar uma história como essa, podemos extrair do emaranhado aquilo que precisamos. Podemos refazer o mapa que mostra o caminho da descida e o caminho de volta. Essa imagem do corte como iniciação tem importância central na história. Se, nas nossas sociedades modernas, as mãos do ego devem ser decepadas com o objetivo de reconquista da nossa função selvagem, dos nossos sentidos femininos, então é melhor que elas sejam mesmo perdidas para que nos afastemos de todas as seduções de coisas sem senti...

Com a perda das mãos, a mulher abre caminho para entrar na selva subterránea, o campo de iniciação do mundo oculto.

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O machado de gume de prata vem de uma outra camada arqueológica do antigo feminino selvagem, na qual a prata é a cor especial do mundo espiritual e da lua. O machado de gume de prata é assim chamado porque nos tempos antigos ele era feito de aço enegrecido na forja, e sua lâmina era afiada com a pedra de amolar até revelar um brilhante tom de prata. Na antiga religião minóica, o machado da deusa era usado para assinalar o caminho ritual do iniciando e para indicar os lugares considerados santos. Ouvi, também, de duas velhas contadoras de histórias croatas que, nas antigas religiões matriarcais, um pequeno machado ritual era utilizado para cortar o cordão umbilical do recém-nascido, liberando a criança do mundo subterrâneo para que ela pudesse viver neste mundo. A prata do machado está relacionada às mãos de prata que, com o tempo, irão pertencer à donzela. Esse é um trecho complexo, pois ele apresenta a idéia de que a remoção das mãos psíquicas pode ser ritual. Nas antigas religiõ...

O predador deseja degradá-la, enfraquecê-la com suas proibições. O diabo acha que, se a donzela não tomar banho e ficar imunda, ele poderá roubá-la de si mesma. O que acontece, porém, é exatamente o contrário, pois a mulher suja de fuligem, a mulher de lama, é amada pela Mulher Selvagem e inequivocamente protegida por ela

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Aparentemente o predador não compreende que suas proibições somente a aproximam cada vez mais da sua poderosa natureza selvagem. O diabo não consegue chegar perto do self selvagem. Esse estado tem uma pureza que acaba repelindo a energia imprudente ou destrutiva. A combinação desse estado com a pureza das lágrimas impede o acesso àquela coisa ruim que deseja seu mal para ter uma vida mais plena.

Há épocas na vida de uma mulher em que ela chora e não consegue parar de chorar e, mesmo que tenha o auxílio e o apoio dos seres amados, ainda assim ela chora. Algo nesse pranto mantém o predador afastado, mantém longe a vantagem ou o desejo mórbido que irá destruí-la. As lágrimas fazem parte do conserto de rasgos na psique pelos quais a energia vinha vazando sem parar

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A questão é séria, mas o pior não ocorre — nossa luz não é roubada — porque as lágrimas nos tornam conscientes. Não há a menor chance de se voltar a adormecer quando se está chorando. O sono que nos chega nessas circunstâncias é apenas repouso para o corpo físico. Às vezes a mulher diz: "não agüento mais chorar, estou cansada, quero parar com isso." No entanto, é a sua alma que está gerando as lágrimas, e elas são a sua proteção. Por isso, ela precisa continuar até a hora em que acabe essa necessidade.

E aqui estamos nós, vestidas e com o máximo de proteção possível, à espera do nosso destino. A donzela chora, no entanto, chora nas próprias mãos. A princípio, quando a psique chora inconscientemente, não conseguimos ouvi-la, a não" ser por uma sensação de desamparo que se abate sobre nós. A donzela continua a chorar. Suas lágrimas são a germinação daquilo que a preservará, daquilo que purifica o ferimento recebido.

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Nas religiões antigas, a purificação e a preparação para a própria morte tornam a pessoa imune ao mal, colocam-na fora do seu alcance. Ao nos abrigarmos sob a proteção da Mãe Selvagem — o círculo de giz — permitimos que a descida psicológica continue sem desvios da sua trajetória, sem que nossa vitalidade seja destruída pela diabólica força oponente da psique.C. S. Lewis escreveu sobre o frasco de lágrimas de criança que cura qualquer ferimento com apenas uma gota. As lágrimas, na mitologia, derretem o coração enregelado. Na história "A criança da pedra", 0 do povo inuit, as lágrimas mornas de um menino fazem com que uma pedra fria se quebre, liberando um espírito protetor. Na história de "Mary Culhane", o demônio que se apoderou de Mary não pode entrar em nenhuma casa onde haja lágrimas derramadas com sinceridade pois essas ele considera "água benta". Desde o início da história, as lágrimas cumpriram três funções: chamaram os espíritos para o lado de qu...

As mulheres costumam dizer que seu estado de espírito é tal que elas simplesmente não conseguem detectar o que é que elas desejam, quer se trate do trabalho, do amor, do tempo, quer se trate do trabalho criativo. É difícil a concentração. É difícil ser produtiva. Essa inquietação nervosa é típica do estágio espiritual do desenvolvimento. Somente o tempo, e não muito adiante de nós, irá nos levar ao abismo do qual precisamos cair ou mergulhar ou sobre o qual precisamos saltar.

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A essa altura na história, vemos um fragmento das antigas religiões noturnas. A jovem banha-se, veste-se de branco, traça um círculo de giz à sua volta. Trata-se de um velho ritual das deusas o de banhar-se — o de purificar-se — de usar o vestido branco — o traje da descida à terra dos mortos — e o de traçar um círculo de proteção mágica — o pensamento sagrado — à sua volta. Tudo isso a donzela faz num estado como que hipnótico, como se estivesse recebendo instruções de um tempo muito remoto.Existe um ponto crítico para nós quando estamos esperando por aquilo que temos certeza de que irá representar nossa destruição, nosso fim. Isso faz com que nós, como a donzela, voltemos nossos ouvidos para uma voz distante proveniente de tempos ancestrais, uma voz que nos diz como nos mantermos fortes, como manter o espírito simples e puro.Se prestarmos atenção às vozes de sonhos, às imagens, às histórias e à nossa arte, àquelas que vieram antes e a cada uma de nós, algo nos será oferecido, até...

Depois disso, nosso espírito reage movimentando-se quando nos movemos, procurando alcançar quando procuramos alcançar, caminhando quando caminhamos, mas sem nenhum sentimento no que faz.

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Ficamos entorpecidas quando percebemos o que acabou ocorrendo. Ficamos horrorizadas por cumprir o pacto. Pensamos que nossos constructos paternos interiores deveriam estar sempre alerta, solidárias com a psique em flor e protetoras para com ela. Descobrimos agora o que acontece quando elas não estão.Passam-se três anos entre o acordo e a volta do diabo. Esses três anos representam um tempo em que a mulher não tem plena consciência do fato de que ela própria é a vítima do sacrifício. Ela é o holocausto oferecido em troca de algo sem valor. Na mitologia, o período de três anos é a época do aumento de pressão, como nos três anos de inverno que precedem Ragnarok, o crepúsculo dos deuses na mitologia escandinava. Em mitos como esses, três anos de alguma natureza decorrem, vem então a destruição e, em seguida, daquela devastação nasce um novo mundo de paz. Esse número de anos simboliza o tempo em que a mulher se pergunta o que irá acontecer agora; em que ela gostaria de saber se o que ...

O segundo estágio — A mutilação

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No segundo estágio da história, os pais voltam trôpegos para casa, derramando lágrimas sobre seus belos trajes. Exatamente três anos depois, o diabo vem apanhar a sua filha. Ela se banhou e pôs um vestido branco. Ela fica parada num círculo de giz que traçou à sua volta. Quando o diabo estende a mão para segurá-la, uma força invisível o atira do outro lado do quintal. Ele lhe ordena que não se banhe. Ela degenera para uma condição animalesca. No entanto, chora nas próprias mãos, e mais uma vez o diabo não consegue tocá-la. Ele então determina que o pai lhe corte as mãos para que ela não possa chorar sobre elas. O pai obedece, e assim termina sua vida como era até então. Entretanto, ela chora nos tocos dos braços, e mais uma vez o diabo não consegue dominá-la, o que o faz desistir.

Deve-se, porém, realçar o fato de ser assim que todo mundo começa. Nessa história, o pai representa o ponto de vista do mundo objetivo, o ideal coletivo que pressiona as mulheres a serem murchas em vez de exuberantemente selvagens. Mesmo assim, não há vergonha nem culpa no fato de você ter renunciado aos seus ramos floridos. É, sem dúvida, você sofreu. E pode ter dado anos, até mesmo décadas, em troca de nada. No entanto, existe uma esperança.

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Portanto, o que deveria ser a árvore florida e nutritiva da psique perde seu poder, seus botões, sua energia; é iludida; é forçada a renunciar ao seu potencial, sem compreender o pacto em que entrou. O drama inteiro quase sempre começa e firma sua posição fora da consciência da mulher. A mãe no conto de fadas informa a toda a psique o que ocorreu. Ela diz: "Acordem! Vejam o que fizeram!" E todo mundo acorda tão rápido que chega a doer. Mesmo assim, a notícia é boa, pois a mãe fraca da psique, que antes ajudava a diluir e a embotar a função dos sentidos, acabou de perceber o horrível significado do pacto. Agora, a dor da mulher chega ao consciente. Quando a dor é consciente, ela pode fazer algo a respeito. Ela pode usá-la para seu aprendizado, para seu fortalecimento, para se tornar uma mulher que sabe. Com o passar do tempo, haverá notícias ainda melhores. Aquilo que foi dado pode ser resgatado. Pode ser restaurado ao seu lugar correio na psique. Vocês verão.

Portanto, quando o moleiro começa a cortar lenha, poderíamos dizer que a psique começou a fazer o trabalho extremamente árduo de produzir luz e calor para si mesma

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O moleiro desempregado passando por dificuldades havia começado a cortar lenha. E um trabalho pesado o de cortar lenha, não é? Ele envolve muito esforço físico. No entanto, esse corte de lenha representa vastos recursos psíquicos, a capacidade de fornecer energia para as próprias tarefas, de desenvolver as próprias idéias, de trazer o seu sonho, qualquer que ele seja, para o seu alcance. No entanto, o pobre ego está sempre procurando uma saída fácil. Quando o diabo sugere aliviar o moleiro do trabalho pesado em troca da luz do feminino profundo, o moleiro ignorante aceita o trato. É assim que selamos nosso destino. Nas profundezas hibernais da nossa mente, somos duronas e sabemos que não existe nada que se assemelhe a uma transformação sem esforço. Sabemos que teremos de arder até o chão, de uma forma ou de outra, para depois nos sentarmos nas cinzas do que um dia pensamos ser e avançar a partir dali. Ocorre, porém, que um outro lado da nossa natureza, uma parte mais desejosa d...

Tudo isso é obra das curanderas, as mulheres das raízes, que moram nas profundezas dos penhascos e das montañas do inconsciente.

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Elas mineram ali o inconsciente profundo e nos passam o produto do seu trabalho. Nós elaboramos o produto que elas nos dão e em conseqüência disso um fogo vigoroso, instintos astutos e conhecimentos profundos ganham vida, e nós nos desenvolvemos e crescemos tanto no mundo interior quanto no objetivo.

A macieira florida da história simboliza um belo aspecto das mulheres, o lado da nossa natureza que tem suas raízes afundadas no universo da Mãe Selvagem, de onde recebe alimento.

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A árvore é o símbolo arquetípico da individuação. Ela é considerada imortal, pois suas sementes sobreviverão a ela, seu sistema radicular protege e revitaliza e ela abriga toda uma cadeia alimentar. Como a mulher, a árvore também tem suas estações e seus estágios de crescimento. Ela tem seu inverno; tem suas primaveras.Havia, também, um ditado sobre as macieiras: "Novos na primavera, frutos amargos; do outro lado, doces como calda". Isso queria dizer que a maçã tinha uma natureza dual. No final da primavera, o fruto estava bonito e redondo, e como que salpicado pelo sol nascente

Quando a mulher renuncia aos seus instintos que lhe indicam a hora certa para dizer sim ou não, quando ela renuncia ao seu insight, sua intuição e outros traços de natureza selvagem, ela se encontra, então, em situações que prometem ouro mas que acabam gerando dor.

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Algumas mulheres desistem da sua arte em troca de um grotesco casamento por interesse, abandonam o sonho de uma vida para ser uma boa esposa, boa filha ou boa menina, ou renunciam à sua verdadeira vocação a fim de levar o que elas esperam que venha a ser uma vida, mais aceitável, mais plena e mais digna. Por esses meios e por outros perdemos nossos instintos. Em vez de nossas vidas se encherem com a possibilidade de iluminação, somos encobertas por uma espécie de "obscurecimento". Nossa capacidade exterior de penetrar na natureza das coisas bem como nossa visão interior estão em sono profundo de tal forma que, quando o diabo chega e bate à porta, nós vamos até ela, como sonâmbulas, e deixamos que ele entre.

"Como posso fazer o melhor uso disso?"

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Essa capacidade psíquica é muitas vezes chamada de processamento. Quando processamos, selecionamos toda a matéria-prima da psique, tudo o que aprendemos, ouvimos, desejamos e sentimos durante um determinado período. Decompomos tudo isso, perguntando, "Como posso fazer o melhor uso disso?" Empregamos, então, essas idéias e energias processadas para implementar nossas tarefas mais profundas e para sustentar nossas diversas iniciativas criativas. Desse modo, a mulher mantém-se robusta e ativa. No entanto, na história, o moinho não está em funcionamento.

Nenhum ente senciente neste mundo tem a permissão de permanecer inocente para sempre.

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Para que possamos crescer, nossa própria natureza instintiva nos força a encarar o fato de que as coisas não são como parecem a princípio ser. A função criativa selvagem nos força a aprender acerca dos numerosos estados do ser, da percepção e do conhecimento. Esses são os inúmeros dutos através dos quais a Mulher Selvagem fala conosco. Portanto, essa perda e essa traição são os primeiros passos vacilantes num longo processo iniciático que nos lança na selva subterránea. Ali, às vezes pela primeira vez em nossa vida, temos a chance de parar de nos chocar com os muros criados por nós mesmas e, em vez disso, aprender a atravessá-los. Embora a perda da inocência das mulheres seja freqüentemente ignorada, na floresta subterrânea a mulher que passou pela queda da própria inocência é considerada especial, em parte por ter sido ferida, mas muito mais porque persistiu, porque está se esforçando para entender, para descascar as camadas das suas percepções e defesas a fim de ver o que está s...

A iniciação da mulher começa com o pacto infeliz que ela fez há muito tempo enquanto ainda estava entorpecida.

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Ao escolher aquilo que a atraiu como sendo a riqueza, ela cedeu, em troca, seu domínio sobre algumas partes, e muitas vezes sobre todas as partes, da sua vida instintiva, criativa e cheia de paixão. Esse entorpecimento psíquico feminino é um estado próximo ao sonambulismo. Durante sua vigência, andamos, conversamos e no entanto estamos dormindo. Amamos, trabalhamos, mas nossas escolhas revelam a verdade acerca da nossa condição. Os aspectos voluptuosos, curiosos, incendiários e bons da nossa natureza não estão em pleno funcionamento.É esse o estado da filha no conto de fadas. Ela é linda de se ver, uma criatura inocente. No entanto, ela poderia continuar a varrer o quintal por trás do moinho para sempre —a de um lado para o outro — sem nunca desenvolver o conhecimento. Sua metamorfose não tem metabolismo

O primeiro estágio — O pacto sem o conhecimento

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No primeiro estágio da história, o moleiro vulnerável e ambicioso faz um pacto infeliz com o diabo. Ele pensava em enriquecer, mas depois percebe que o preço será muitíssimo alto. Ele pensava estar dando sua macieira em troca da prosperidade, mas descobre que, em vez disso, deu sua filha ao diabo. Na psicologia arquetípica, consideramos todos os elementos de um conto de fadas como descrições de aspectos da psique de uma única mulher. Portanto, ao examinar essa história, como mulheres, precisamos nos perguntar logo no início qual é o pacto infeliz que toda mulher faz. Embora possamos ter respostas diferentes em dias diferentes, há uma resposta que é constante na vida de todas as mulheres. Embora detestemos admitir o fato, na esmagadora maioria das vezes o pacto mais infeliz das nossas vidas é o que fazemos quando nos privamos da nossa vida de conhecimento profundo em troca de uma vida que é muito mais frágil; quando renunciamos aos nossos dentes, nossas garras, nossos sentidos, noss...