Os principais agentes de transformação presentes no pomar nessa ocasião são, na ordem aproximada de sua aparição, a donzela, o espírito de branco, o jardineiro, o rei, o mago, a mãe/a velha e o diabo. Segundo a tradição, eles representam as seguintes forças intrapsíquicas.

Nesse sentido, a história funciona de dois modos, seja deixando transparecer o suficiente dos antigos rituais para que possamos imaginá-los, seja mostrando-nos como o predador natural tenta nos isolar dos nossos poderes de direito, como ele tenta tirar de nós nosso trabalho mais profundo.
A DONZELA Como vimos, a donzela representa a psique sincera que esteve adormecida. No entanto, uma heroína-guerreira encontra-se por baixo da sua aparência frágil. Ela tem a resistência do lobo solitário. Ela é capaz de suportar a sujeira, a imundície, a traição, a mágoa, a solidão e o exílio do iniciando. Ela é capaz de vaguear pelo mundo dos mortos e voltar, enriquecida ao mundo objetivo. Embora ela talvez não seja capaz de colocá-las em palavras, ao descer pela primeira vez, ela está seguindo as instruções e recomendações da Velha Mãe, a Mulher Selvagem.
O ESPÍRITO DE BRANCO Em todas as lendas e contos de fadas, o espírito de branco é o guia, aquele que tem um conhecimento inato e delicado, que mais parece um desbravador para a jornada da mulher. Entre alguns dos mesemondók, considerava-se que esse espírito. seria um fragmento de um antigo e precioso deus estilhaçado que ainda se infundia em cada ser humano. Pelo modo de se vestir, o espírito de branco está intimamente relacionado com inúmeras deusas da vida-morte-vida de diversas culturas que se vestem todas de um branco radiante — La Llorona, Berchta, Hel, entre outras. Isso significa que o espírito de branco é um auxiliar da mãe/velha que, na psicologia dos arquétipos é também uma deusa da vida-morte-vida.
O JARDINEIRO O jardineiro é quem cultiva a alma, um revitalizante guardião da semente, do solo, da raiz. Ele é semelhante a Kokopelli, do povo hopi, um espírito corcunda que chega às aldeias a cada primavera e fertiliza as lavouras assim como as mulheres. A função do jardineiro é a de reproduzir. A psique da mulher precisa constantemente semear, tutorar e colher novas energias a fim de substituir a que estiver velha e exausta. Existe uma entropia natural, ou desgaste pelo uso, das peças psíquicas. Isso é bom; é assim que se espera que a psique funcione, mas cada um precisa ter energiasem-treinamento, prontas para a reposição. É esse o papel do jardineiro na função psíquica. Ele não perde de vista a necessidade de mudança e de reabastecimento. Em termos intrapsíquicos, existe vida constante, morte constante, substituição constante de idéias, imagens, energias.
O REI O rei representa um tesouro de conhecimentos no outro mundo. Ele dispõe da capacidade de levar seu conhecimento interior até o mundo lá fora para pô-lo em prática, sem afetação, sem resmungos, sem desculpas. O rei é filho da rainhamãe/velha. À sua semelhança, e provavelmente seguindo seu exemplo, ele se envolve nos mecanismos do processo vital da psique: a fragilidade, a morte e a volta à consciência. Mais tarde na história, ao vaguear à procura da sua rainha perdida, ele passará por uma espécie de morte que o transformará de rei civilizado em rei selvagem. Ele encontrará sua rainha, podendo, assim, renascer. Em termos psíquicos, isso quer dizer que as antigas atitudes centrais da psique morrerão à medida que ela aprender outras. As antigas atitudes serão substituídas por pontos de vista novos ou renovados acerca de quase tudo na vida da mulher. Nesse sentido, o rei representa a renovação das atitudes e leis que regem a psique da mulher
O MAGO O mago, ou mágico,que o rei traz consigo para interpretar o que vê, representa a magia direta do poder da mulher. Coisas como a recordação num átimo, a visão a mil léguas de distância, a audição que cobre quilômetros, a capacidade solidária de ver como se através dos olhos do outro — ser humano ou animal — tudo isso pertence ao instintual feminino. É o mago que compartilha dessas habilidades e também, por tradição, ajuda a mantê-las e a fazê-las funcionar no mundo objetivo. Embora o mago possa ser de qualquer sexo, aqui ele é uma poderosa figura masculina, semelhante nos contos de fadas ao irmão resoluto que ama tanto a irmã a ponto de fazer tudo para ajudá-la. O mago sempre tem um potencial de transferência. Nos sonhos e na literatura, ele aparece como homem na mesma freqüência em que aparece como mulher. Ele pode ser masculino, feminino, animal ou mineral, exatamente da mesma forma que a velha, sua equivalente feminina, também consegue trocar seus disfarces com facilidade. Na vida consciente, o mago ajuda a capacidade da mulher de se tornar aquilo que deseja parecer a qualquer momento.
A RAINHA-MÃE/A VELHA A rainha-mãe/a velha nessa história é a mãe do rei. Essa figura representa muitas coisas, entre elas a fecundidade, a enorme autoridade para detectar os ardis do predador e a capacidade de abrandar maldições. A palavra fecundidade parece ter o som dos tambores quando pronunciada em voz alta, significa mais do que a fertilidade; ela indica a vulnerabilidade, a capacidade de o solo ser vulnerável à conquista. Ela é aquele solo negro cintilante com mica, negras raízes peludas e toda, a vida que passou antes, tudo decomposto num húmus perfumado. O termo fertilidade possui a conotação de sementes, ovos, seres, idéias. A fecundidade é a matéria fundamental na qual as sementes são colocadas, preparadas, aquecidas, incubadas, preservadas. É por isso que a velha mãe é muitas vezes chamada pelos seus nomes mais antigos — Mãe Terra, Mãe Poeira, Mam e Ma — pois ela é o estrume que faz com que as idéias aconteçam.
O DIABO Nessa história, a natureza dual da alma da mulher, que tanto a aflige quanto a cura, foi substituída por uma figura única, a do diabo. Como observamos anteriormente, essa figura do diabo representa o predador natural da psique da mulher, um aspecto contrário à natureza que se opõe ao desenvolvimento da psique e tenta eliminar todo o ânimo. Ela é uma força que se isolou do seu aspecto revitalizante. É uma força que precisa ser dominada e contida. A figura do demônio não é idêntica a uma outra força natural que aflige e instiga, também atuante na psique feminina, a força que eu chamo de alter-alma. A alter-alma aparece com freqüência nos sonhos das mulheres, nos contos de fadas e nos mitos como uma figura mutante de velha que seduz e assedia a mulher até uma descida que em termos ideais acaba numa reunião com seus recursos mais profundos.

Comentários

  1. Portanto, aqui nesse pomar do outro mundo, aguarda-nos a impressionante
    reunião dessas poderosas partes da psique, tanto as masculinas quanto as femininas.
    Elas formam um conjunctio. Esse termo pertence à alquimia e indica uma união
    altamente transformadora de substâncias dessemelhantes. Quando ocorre o atrito
    entre esses opostos, resulta daí a ativação de certos processos intrapsíquicos. Eles
    agem como a pederneira em atrito com alguma pedra para fazer fogo. É através da
    conjunção e da pressão de elementos díspares habitando o mesmo espaço psíquico
    que são criados o conhecimento, o insight e a energia profunda.

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