O quarto estágio — Encontrando o amor no outro mundo

Na manhã do dia seguinte, o rei vem contar suas pêras. Está faltando uma, e o jardineiro revela o que viu. "Ontem à noite, dois espíritos esgotaram o fosso, entraram no jardim à luz do luar e um deles que era mulher e não tinha mãos comeu a pêra que se oferecia a ela."O rei é uma criatura que transmite sabedoria na psique do outro mundo. Ele não é simplesmente qualquer rei velho, mas um dos principais guardiões do inconsciente da mulher. Ele cuida da botânica da alma que cresce — o pomar dele (e da sua mãe) está repleto de árvores da vida e da morte. Ele pertence à família dos deuses selvagens. Como a donzela, ele é capaz de agüentar muito. E como a donzela, ele ainda tem mais uma descida à sua frente. Mas isso virá depois.
Num certo sentido, seria possível dizer que ele está seguindo o rastro da donzela. A psique sempre acompanha de perto seu próprio processo, como uma sombra. Essa é uma premissa das sagradas. Ela quer dizer que, se você estiver vagueando, sempre haverá mais alguém — pelo menos uma pessoa e muitas vezes mais de uma — que seja mais maduro e experiente e que somente espere que você bata à porta, bata na pedra, coma a pêra ou simplesmente apareça, para que ele anuncie sua chegada ao mundo subterrâneo. Essa presença carinhosa espera pela exploradora andarilha e vela por ela. As mulheres conhecem isso muito bem. Elas a chamam de pequeno tremeluzir da luz do insight, pressentimento ou simplesmente presença.

Comentários

  1. O jardineiro, o rei e o mago são três personificações maduras do arquétipo do
    masculino. Eles correspondem à trindade sagrada do feminino representada pela
    donzela, pela mãe e pela velha. Nessa história, a antiga divindade tríplice ou as trêsdeusas-em-uma são assim representadas: a donzela é retratada na mulher sem mãos;
    a mãe e a velha são as duas retratadas na mãe do rei, que entra na história mais tarde.
    A peculiaridade da história que a faz "moderna" está no fato de a imagem do demônio
    representar uma figura que nos antigos ritos de iniciação feminina era geralmente
    encarnada pela velha, na sua natureza dual de doadora e tomadora da vida. Nessa
    história, o diabo é retratado apenas como tomador da vida.

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