No tempo dos grandes matriarcados, compreendia-se que a mulher seria naturalmente levada ao mundo subterrâneo, que seria até lá conduzida pelos poderes do feminino profundo.

Era considerado parte da sua formação e uma realização de altíssimo valor que ela adquirisse conhecimento por experiência própria. A natureza dessa descida é o cerne arquetípico tanto do conto de fadas da donzela sem mãos quanto do mito de Deméter e Perséfone. Pois agora, na história, a donzela vagueia, mais uma vez assumindo sua natureza animal, que não se lava. É essa a atitude certa para a descida — uma atitude do tipo "não ligo tanto assim para as coisas deste mundo". E como podemos ver, sua beleza refulge mesmo assim. A idéia de não se lavar também provém dos rituais de tempos antiqüíssimos, rituais que culminavam com o banho e novos trajes representantes da passagem para um relacionamento novo ou renovado com o Self.
Vemos que a donzela sem mãos passou por uma descida e transformação completa: a do despertar. Na alquimia, existem três estágios: o nigredo, o estágio negro ou sombrio da dissolução; o rubedo, o estágio vermelho ou do sacrifício; e saída de casa envolta em branco, o albedo, a nova vida. Agora, como andarilha, ela é jogada de volta ao nigredo. Agora, porém, seu velho self não mais existe, e o self profundo, o self nu, é o poderoso andarilho.

Comentários

  1. Agora, a donzela não está apenas desfigurada, mas faminta. Ela se ajoelha
    diante de um pomar como se este fosse um altar — o que ele é —, o altar dos deuses
    selvagens do outro mundo. À medida que descemos até nossa natureza básica, as
    antigas formas automáticas de alimentação são eliminadas. Coisas do mundo que
    costumavam ser alimento para nós perdem seu sabor. Nossas metas não mais nos
    atraem. Nossas realizações não têm mais interesse. Para onde quer que olhemos no
    mundo objetivo não há alimento para nós. Portanto, é um dos milagres mais
    autênticos da psique que, quando estamos tão desamparadas, a ajuda chega e bem na
    hora.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"A donzela sem mãos" é uma história da vida real a respeito de nós, mulheres de verdade. Ela não trata de uma parte das nossas vidas, mas da nossa existência inteira.

O sétimo estágio — O noivo e a noiva selvagens

O que vemos são duas mulheres que, durante o prazo de sete anos, vêm a se conhecer mutuamente. O espírito de branco é semelhante à telepática Baba Yaga em "Vasalisa", que é uma representação da velha Mãe Selvagem. Como a Yaga diz a Vasalisa, muito embora nunca a tenha visto antes, "Sei, conheço o seu pessoal", esse espírito feminino que toma conta da estalagem no outro mundo já conhece a jovem rainha, pois ela também faz parte da sagrada Mulher Selvagem, que tudo sabe.