Nos contos de fadas, existe um leitmotiv chamado de "objeto lançado"
A
heroína que está sendo perseguida tira um pente mágico dos cabelos e o joga atrás de
si, onde ele se transforma numa floresta tão densa que não se consegue enfiar um
forcado entre as árvores. Ou então a heroína tem um pequeno frasco de água, que ela
abre, salpicando seu conteúdo atrás de si enquanto corre. As gotículas transformamse numa enchente, que efetivamente retarda a velocidade de quem a persegue.
Na história, a jovem chora sem parar, molhando os tocos dos braços, e o diabo
é repelido por algum tipo de campo de força ao seu redor. Ele não consegue agarrá-la
como pretendia. Aqui, as lágrimas são o "objeto lançado", o muro de água que
mantém o diabo afastado, não porque ele esteja comovido ou emocionado com elas —
ele não está — mas porque há algo na pureza das lágrimas verdadeiras que anula o
poder do demônio. Descobrimos que isso é verdade quando choramos a mais não
poder porque não há nada, absolutamente nada, no horizonte a não ser as
possibilidades mais áridas, mais sombrias e impenitentes, e no entanto são nossas
lágrimas que nos salvam de arder até nos reduzirmos a cinzas.

A filha deve lamentar-se. Fico perplexa com o fato de as mulheres hoje em dia
ResponderExcluirchorarem tão pouco e, quando o fazem, procuram justificativas. Fico preocupada
quando a vergonha ou o desabito começam a eliminar uma função natural. Ser uma
árvore florida e estar cheia de seiva é essencial, se não você pode se quebrar. Chorar
faz bem, e é certo. Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue
em vez de entrar em colapso. E agora, a vida da donzela como era até então, sua
compreensão da vida até esse ponto, terminou, e ela desce para outro nível do mundo
oculto. E nós continuamos a acompanhá-la. Prosseguimos, mesmo nos sentindo
vulneráveis e tão desprovidas de proteção do ego quanto uma árvore cuja casca foi
arrancada. No entanto, temos poder já que aprendemos a atirar o diabo para o outro
lado do quintal.