E, como estamos perto do Letes, continuamos a roncar. É esse o erro que todas nós cometemos — não uma vez, mas muitas vezes. Nós nos esquecemos de nos lembrar do diabo.

A mensagem é trocada de um tom jubiloso, "A rainha deu à luz uma linda criança" para uma calúnia, "A rainha deu à luz uma criança que é metade cachorro". Numa versão da história, a mensagem trocada é ainda mais explícita: "A rainha deu à luz uma criança que é metade cachorro por ter copulado com as feras da floresta." Essa imagem de um ser metade cachorro não é casual, mas na realidade um belo fragmento das antigas religiões centradas em deusas desde a Europa até a Ásia. Naquela época, as pessoas adoravam uma deusa de três cabeças. As deusas de três cabeças são representadas por Hécate, a Baba Yaga, a Mãe Holie, Berchta e Ártemis, entre outras. Cada uma aparecia como um desses animais ou tinha grande intimidade com eles. Nas religiões mais antigas, essas e outras divindades femininas selvagens e poderosas transmitiam as tradições de iniciação feminina e ensinavam às mulheres todos os estágios da vida feminina, desde a donzela até a mãe e a velha enrugada. Dar à luz um ser que é metade cachorro é uma degradação deformada das antigas deusas selvagens cujas naturezas instintuais eram consideradas sagradas.

Comentários

  1. Foi a essa altura que a Mulher Selvagem foi derrubada e enterrada nas
    profundezas da terra e o lado selvagem das mulheres começou não só a definhar
    como a precisar ser mencionado em sussurros e em locais secretos. Em muitos casos,
    as mulheres que amavam a velha Mãe Selvagem tiveram de proteger sua vida com
    cuidado. Finalmente, esse conhecimento somente transparecia em contos de fadas,
    no folclore, em estados de transe e nos sonhos.

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  2. Enquanto no "Barba-azul" soubemos da existência do predador natural como
    alguém que corta as ações, sentimentos e idéias das mulheres, aqui na história da
    donzela sem mãos examinamos um aspecto mais sutil mas imensamente poderoso do
    predador, um aspecto que devemos enfrentar na nossa psique, e cada vez mais com
    freqüência diária na nossa própria sociedade real.

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