"A donzela sem mãos" revela como o predador tem a capacidade de distorcer as percepções humanas e as compreensões vitais de que precisamos para desenvolver dignidade moral, amplitude de visão e uma ação solidária na nossa vida e no mundo.
No "Barba-azul", o predador não permite que ninguém sobreviva. Já na história da
donzela sem mãos, o diabo permite a vida, mas procura impedir que a mulher refaça
o vínculo com os profundos conhecimentos da Mulher Selvagem, aquela natureza
instintual que possui uma precisão automática de percepção e de ação.
Portanto, quando o diabo troca a mensagem no conto, esse fato pode ser em
certo sentido considerado como um registro fiel de um acontecimento histórico, um
acontecimento que está especialmente relacionado à mulher moderna na sua missão
psíquica de descida e de conscientização. É digno de nota que muitos aspectos da
cultura (na acepção do sistema de pensamento coletivo e dominante num grupo de
pessoas que vivam em proximidade suficiente para se influenciarem mutuamente)
ainda atuem como o diabo no que diz respeito ao trabalho interior, à vida pessoal e
aos processos psíquicos das mulheres. Eliminando um pouco aqui e apagando mais
um pouco acolá, cortando uma raiz aqui e vedando uma abertura mais adiante, o
"diabo" da cultura e o predador intrapsíquico fazem com que gerações de mulheres
sintam medo mas continuem perambulando sem a menor pista das causas, ou da
própria perda da natureza selvagem, que poderiam revelar tudo para elas.

Embora seja verdade que o predador tenha uma preferência pela caça que de
ResponderExcluircerto modo apresenta a alma faminta, que sinta solidão da alma ou que se apresente
debilitada sob algum outro aspecto, os contos de fadas demonstram-nos que o
predador se vê atraído também pela consciência, pela renovação, pelo alívio e pela
liberdade recém-adquirida. Assim que percebe um desses aspectos, ele
imediatamente aparece.
Inúmeros enredos realçam o predador, incluindo-se os mencionados neste
livro, bem como contos de fadas como “Cap of Rushes” e “All Fur”, e passando pelos
mitos sobre a grega Andrômeda e a asteca Malinche. As estratégias usadas consistem
na difamação dos objetivos da protagonista, no emprego de linguagem depreciativa
para a descrição da vítima, nas críticas irracionais, nas proibições e nas punições
injustifícáveis. São esses os meios pelos quais o predador troca as mensagens
vitalizantes entre a alma e o espírito por mensagens letais que nos cortam o coração,
despertam nossa vergonha e, o que ainda é mais importante, nos deixam inibidas
para tomar atitudes corretas.